Há uma voz para chamar de minha?

Quando comecei a delinear o que eu gostaria de fazer musicalmente, em um processo de análise que me levasse para algo confortável do ponto de vista técnico, expressivo, mental e, por que não, prático, fazer voz e violão pareceu-me a escolha óbvia. Aliás, foi algo tão natural que nem sei se posso falar em escolha, não cogitei outras possibilidades. O violão foi companheiro desde a adolescência, do erudito ao rock e é o instrumento símbolo da música brasileira. Posteriormente, todo meu estudo e treinamento vocal foi e é objetivando nossa música. As ferramentas estavam escolhidas! Seriam, pois, a minha voz e o meu violão.


Essa escolha tão natural levou a uma série de questionamentos outros, mas um forma a questão central: o que eu tenho a oferecer de diferente ou porque alguém me ouviria ou assistiria já que há tantos outros artistas se expressando neste mesmo formato voz e violão? E há ainda outros tantos que se utilizam de formações diversas, bandas de todos os tamanhos, duos, trios, quartetos. O Lucas Andrade que, primordialmente, trabalha com interpretações da obra de outros compositores tem algo a dizer para outra alma?


Bom, acredito que sim, senão nem estaria aqui, concorda? Contudo, gostaria de compartilhar um pouco do processo (nada simples) pelo qual passei (e ainda passo) para poder responder "sim" e poder colocar a cara no mundo. Jogarei uma frase tão óbvia que soará boba: ninguém nesse planeta tem a minha voz. Ninguém! Seja isso bom ou ruim, com suas qualidades e defeitos, mas a minha voz é única. Pedantismo? Nem um pouco. Porque com a sua voz acontece a mesma coisa. Ela é só sua. Única.


Em que sentido estou falando em "voz"? Em alguns. O primeiro e mais direto é a voz enquanto conjunto de sons produzidos pelas vibrações das pregas vocais sob pressão do ar que percorre a laringe por todo o trato vocal. O timbre, as técnicas, a dicção, o sotaque, a carga histórica e social que seu corpo carrega e faz sair pela boca.


Essa mesma carga histórica e social também se manifesta em sua personalidade, em sua linguagem corporal, em seu repertório. Mesmo que você não seja artista, você tem um repertório, um conjunto de canções que lhe definem. Aqui a "voz" é metáfora para "você". Sua voz é você, você é sua voz. Só há um de você nesse planeta.


Simples. Mas demorou muito para eu resolver isso mentalmente. Porque caí algumas vezes no erro de pensar que eu teria de competir com grandes vozes, vozes mais bem treinadas, mais belas, mais consagradas ou até mais verdadeiras. Por exemplo, tem como cantar algo de João do Vale com mais verdade do que com a voz do próprio? Não, não tem. E não é preciso. Cada um tem sua voz, lembra?